Chá Filosófico

Em tempos de crise econômica internacional e do Fórum Social Mundial, é interessante refletir sobre o que seria mesmo essa crise:

O que é mesmo uma crise capitalista?
Desde logo, vejamos o que não é uma crise capitalista:
crise 01Haver 950 milhões de famintos em todo o mundo não é uma crise capitalista.
Haver 4,75 bilhões de pobres no mundo não é uma crise capitalista.
Haver 1 bilhão de desempregados espalhados por todo o mundo não é uma crise capitalista.
Haver mais de 50% da população mundial no subemprego ou que trabalhe em condições precárias não é uma crise capitalista.
Haver 45% da população mundial sem a acesso direto à água potável não é uma crise capitalista.
Haver 3 bilhões de pessoas sem saneamento básico não é uma crise capitalista.
Haver 113 milhões de crianças sem acesso à educação e 875 milhões de adultos analfabetos não é uma crise capitalista.
Morrerem 12 milhões de crianças todos os anos por doenças que são perfeitamente curáveis não é uma crise capitalista.
Morrerem 13 milhões de pessoas a cada ano por causa da deterioração dos ambientes naturais e por mudanças climáticas não é uma crise capitalista.
Haver 16.306 espécies em vias de extinção, das quais 25% são mamíferos não é uma crise capitalista.
Tudo isto, como se sabe, já havia antes, e não gerou nenhuma crise capitalista.
Pode ser tudo, mas não é, segundo os economistas de mercado e “especialistas” na matéria, uma crise capitalista.

O que é, então, uma crise capitalista? Ou, dito por outras palavras, quando é que começa a sentir-se uma crise capitalista?
crise 02A crise capitalista aparece quando os lucros esperados, e que são o fim e a razão de ser das empresas capitalistas, não são alcançados. Aí sim, quando os lucros já não são tão elevados como se esperava, fala-se então de uma crise capitalista. Ou seja, a crise capitalista surge quando os fatos associados aos indicadores sócio-econômicos acima referidos sobre a fome, a pobreza, o desemprego, a precariedade, a escassez de água potável e de apoio sanitário, mostram que não são suficientemente maus e negativos para garantir a rentabilidade dos investimentos e do capital dos poderosos grupos e empresas multinacionais, pelo que a manutenção da rentabilidade desses conglomerados empresariais exigirá ainda uma maior degradação das condições sociais de vida das populações como meio para garantir as tão almejadas taxas de lucro das grandes empresas mundiais, que são quem verdadeiramente dominam o mundo, segundo a lei que as governa, isto é, a maximização do lucro e a capitalização dos ganhos.
Curiosamente, dizem os “donos” deste mundo que quem não pensa em função da maximização dos lucros e da acumulação do capital, esses são pessoas sonhadoras, irresponsáveis, líricas, idealistas, subversivos…
Mas, afinal, quem se mostra verdadeiramente fanatizado pelo fundamentalismo do lucro e do capital, longe das realidades e das necessidades das populações, quem tem sido responsável pelo crescimento insustentável e desigualitário, quem se revela completamente viciado na roleta desta economia de cassino como é o capitalismo, são essas figuras pardas, cínicas e sombrias que nos governam, exploram e oprimem. Fonte:
http://pimentanegra.blogspot.com/

_______________________________________________________

O mundo sem nós – Alan Weisman

The World Without UsQualquer um cuja mente seja açodada por um mínimo de imaginação já conjeturou um mundo sem seres humanos. O que aconteceria se nós, humanos – cuja passagem pelo planeta Terra ocupa um ínfimo espaço no calendário global – simplesmente desaparecêssemos? Que catástrofes adviriam desta ausência? E que benefícios? É este o pano de fundo do livro “O Mundo Sem Nós” (The World Without Us), do jornalista Alan Weisman (veja aqui o site do livro).

Weisman traça um cenário aterrador sobre a influência daninha que o homem exerce sobre o planeta. Em suas 382 páginas, o livro deixa claro que, longe de ser o provedor que se imagina, o homem tem colaborado para o envenenamento contínuo de sua casa e, extinto, apenas interromperia este processo, fazendo com que a natureza, pouco a pouco, voltasse a ocupar os espaços da qual foi expulsa pelo “progresso”.

Diante da nefasta ação humana sobre o meio ambiente, há quem defenda que os seres-humanos tomem a iniciativa de deixar em paz a natureza. É o caso do “Movimento de Extinção Humana Voluntária” (VEHMT), que pretende suprimir a raça humana ao, voluntariamente, deixar de procriar, permitindo à biosfera terrestre retornar à boa saúde. Pode parecer maluquice, mas o movimento é sério e, diante da destruição que proporcionamos, tem fundamento. “Fazer tornar a Terra ao seu esplendor natural e encerrar o sofrimento inútil da humanidade são pensamentos positivos”, afirma o VEHMT.

Boa parte do livro se dedica a explicar o que aconteceria com o mundo caso os seres humanos fossem extintos. A partir de entrevistas com zoólogos, biólogos, engenheiros e paleontólogos, Weisman mostra que pouca coisa resistiria à ação do tempo e das forças da natureza, e revela como nosso “lixo tecnológico” continuará envenenando o meio ambiente nos milhões de anos vindouros.

Com uma narrativa recheada por pesquisas de campo, Weissman explica como nossa imensa infra-estrutura irá entrar em colapso e, finalmente, desaparecer juntamente com qualquer vestígio de nossa presença no planeta; como nossos artefatos do dia a dia se transformarão em fósseis; como canos e fios de cobre serão transformados em veios minerais; porque algumas de nossas construções poderão ser os últimos vestígios de arquitetura e como o plástico, as esculturas de bronze, as ondas de rádio e algumas moléculas criadas pelo homem poderão ser os últimos sinais de nossa presença no universo.

Em “O mundo sem nós”, descobrimos como as selvas de asfalto serão substituídas por selvas verdes em meios às cidades em ruínas; como as fazendas tratadas de forma orgânica ou química irão se transformar em áreas selvagens; como bilhões de pássaros surgirão e baratas sucumbirão sem nossa presença. Em lugares esquecidos ou abandonados pelos humanos (como um pequeno fragmento das florestas primevas da Europa, uma zona desmilitarizada entre as Coréias e Chernobyl), Weisman revela a tremenda capacidade de recuperação de nosso planeta.

Sem a presença humana, em dois dias o metrô de Nova Iorque seria inundado devido à paralisação do bombeamento de água. Sete dias depois, a reserva de emergência dos geradores a diesel que mantém em funcionamento o resfriamento de usinas nucleares chegaria ao fim. Passado um ano, um bilhão de pássaros deixaria de ser abatidos quando as luzes de sinalização das torres de rádio e comunicação apagassem e parassem de interferir em seu sistema de orientação. Dez anos depois de o homem desaparecer, o teto de celeiro com um buraco de meio metro quadrado, que já estava vazando na década anterior, já teria desaparecido há tempos. Passados cem anos, populações de pequenos predadores, guaxinins, doninhas e raposas diminuiriam graças à competição com um legado humano: s imensamente bem-sucedidos e ferozes gatos domésticos. Em mais 200 anos, as grandes pontes teriam desabado e barragens em todo o mundo destruídas. Cidades localizadas na foz de rios teriam sido destroçadas. Depois de alguns milhares de anos, qualquer parede de pedra que ainda estivesse de pé no hemisfério norte finalmente cederia ao frio.

Seriam necessários 35 mil anos para que o chumbo depositado durante a “era das chaminés” finalmente fosse removido do solo (para o cadmium serão necessários 75 mil anos). Pelo menos 100 mil anos depois da Terra ter se livrado de nós, o gás carbônico (CO2) terá voltado a níveis pré-humanos. O plástico, que tão orgulhosamente ostentamos em embalagens e produtos de todos os gêneros, precisará de pelo menos 100 mil anos para ser devorado por micróbios. Milhões de anos terão se passado antes de nossa presença física ter sido totalmente apagada. Esculturas de bronze ainda serão reconhecíveis em 10,2 milhões de anos. Ainda assim a vida na terra continuará em formas que jamais sonhamos pelos próximos bilhões de anos, até que nosso pequeno planeta seja queimado por um sol agonizante que, ao se expandir, englobará os planetas que o circundam (o que deve ocorrer daqui há cerca de cinco bilhões de anos). Ainda assim, o legado humano permanecerá para sempre em nossos programas de rádio e TV, cujas ondas, fragmentadas, ainda estarão viajando pelo universo.

O mundo sem nós

1 dia Combustível fóssil continuará alimentando usinas (em sua maior parte, automatizadas) por algumas horas. Também em algumas horas, a energia elétrica começará a entrar em colapso. Praticamente todas as usinas dependentes de combustível fóssil irão desligar.
2 dias Após 48 horas, os reatores de usinas nucleares entrarão em modo de segurança automaticamente. Turbinas de todos os tipos começarão a falhas devido a falta de lubrificação. Apenas áreas dotadas de energia provida por hidrelétricas ou energia solar contarão com eletricidade.
3 dias Metrôs que precisam operar com sistemas de bombeamento de água estariam inundados em menos de 36 horas.
10 dias Comida começaria a apodrecer nas prateleiras de supermercados e nos refrigeradores. Enquanto houver água derretida proveniente de refrigeradores e comida deixada à vista, os animais de estimação permanecerão nas proximidades de suas casas. Logo, no entanto, eles terão de procurar alimento em outros lugares. Àqueles que conseguirem sair de casa irão competir pela sobrevivência. Cães e gatos criados por meio de manipulação genética não encontrarão um nicho neste competitivo ambiente e estarão entre os primeiros a perecer. Por exemplo, as pernas curtas e boca pequena de bulldogs e terriers serão problemas para estas raças. Animais aprisionados em zoológicos morrerão de fome e sede.
6 meses Pequenas formas de vida selvagem não vistas com freqüência em meio à civilização – coiotes, gatos selvagens, lobos, veados etc – começarão a habitar os subúrbios das cidades. Os ratos já terão consumido nossos suprimentos estocados e começarão a deixar as áreas urbanas rumo às áreas selvagens.
1 ano Plantas começarão a brotar em meio a rachaduras no asfalto de estradas, ruas, passeios e construções. As últimas áreas com eletricidade cederão espaço a escuridão.
Barragens começarão a transbordar e se romper. Incêndios causados por raios terão destruído grandes áreas urbanas e selvagens. Várias espécies de animais terão avançado sobre as cidades.
5 anos A flora terá coberto a maioria das áreas urbanas com grama e árvores. Estradas serão cobertas por vegetação e, devido a falta de manutenção, desaparecerão.
20 anos As ruínas de Prypiat, na Ucrânia, abandonadas em 1986 após o desastre de Chernobyl, têm sido usadas como exemplo para demonstrar a decadência de áreas urbanas abandonadas após 20 anos sem a presença humana. Apesar dos altos níveis de radiação, muitas populações de animais, além de uma vasta flora, têm florescido nestas áreas.
25 anos O mar terá avançado sobre algumas áreas urbanas como Londres e Amsterdã, que são mantidas secas graças à engenharia. Janelas em prédios altos terão sido destruídas devido ao ciclo de frio e calor e devido à falta de manutenção nos seladores. Devido à falta de ajustes, satélites começarão a cair de volta à Terra.
40 anos Muitas construções de madeira terão se incendiado, apodrecido, ou consumidas por cupins. Árvores e vinhas terão se infiltrado e crescido em meio ao que restasse das construções de alvenaria, já bastante enfraquecidas pela ação dos elementos.
50 anos Estruturas de metal começarão a mostrar sinais de negligência. A pintura, que normalmente protege estas estruturas, já não existirá, expondo o metal aos elementos e permitindo a corrosão.
75 anos Muitos dos 600 milhões de automóveis que se espalham pelo globo terão sido reduzidos a escombros irreconhecíveis. Alguns veículos localizados em áreas de clima mais ceco não terão sofrido o efeito da corrosão de forma tão flagrante e ainda serão reconhecíveis.
100 anos Grandes pontes terão desabado devido à corrosão dos cabos de suporte. Muitas estruturas construídas pelo homem terão desabado em um período de 100 a 10 mil anos.
150 anos Muitas estradas e metrôs começarão a desabar sobre túneis inundados. Edifícios terão sido totalmente tomados por plantas, criando uma paisagem selvagem em um ecossistema vertical. Descendentes dos cães domésticos terão cruzado com lobos.
200 anos Grandes estruturas como o Empire State Building e a Torre Eifel terão desabado devido à ação da corrosão, das plantas e da água que terá desestabilizado suas fundações. Todos os livros e vídeos terão desaparecido sob a força do mofo.
500 anos Itens feitos com concreto começarão a ruir devido à expansão das barras de ferro que os reforçam.
1000 anos A maioria das cidades modernas terão sido destruídas e/ou cobertas pelas florestas. Os amontoados de escombros se transformarão em montanhas e colinas. Rios voltarão as suas margens originais. Haverá poucas evidências de que uma civilização humana tenha existido a Terra. Certas estruturas feitas de tijolos de pedra ou concreto, como as Pirâmides do Egito ainda estarão de pé com danos mínimos.
10.000 anos As construções de concreto cederão devido à erosão e aos efeitos cumulativos da ação sísmica.
Neste período, qualquer evidência substancial da humanidade terá desaparecido. Apenas algumas coisas ainda permanecerão, como os pedestais de granito ou concreto sólidos da Estátua da Liberdade. As Pirâmides de Gizé ainda estarão de pé, embora bastante enterradas na areia do deserto. Porções do Grande Muro da China também permanecerão visíveis. As faces do Monte Rushmore ainda estarão reconhecíveis por centenas de milhares de anos. Nossos ossos, escombros, plástico e poliestireno (isopores) poderão ser os últimos sinais da humanidade.

Alan Weisman é autor de cinco livros, incluindo “O mundo sem nós”. Seu trabalho já apareceu na Harpers, New York Times Magazine, Los Angeles Times Magazine, Discover, Atlantic Monthly, Condé Nast Traveler, Orion e Mother Jones. Weisman tem um programa na National Public Radio e na Public Radio International e é produtor sênior da Homelands Productions, organização jornalística que produz séries independentes de documentários para a rádio pública. Ele leciona jornalismo internacional na University of Arizona.

______________________________________________________________________

A DIFICULDADE DE MUDAR

denis_russo_homeDenis Russo Burgierman
Seres humanos têm um defeito crônico: a dificuldade patológica de mudar as coisas quando se está confortável. Bom, não estamos mais confortáveis. A economia mundial está atolada num pântano, está todo mundo bravo e insatisfeito. O aquecimento global está zumbindo no nosso ouvido feito pernilongo. Tenho ouvido até das pessoas menos engajadas que conheço discursos enfezados e idealistas. Tenho sentido nas ruas um clima de urgência, um desejo de mudança, uma massa crítica se formando. Sob risco de ser acusado de ingenuidade, declaro: o mundo vai mudar. Vai mudar muito, e assustadoramente rápido. Se você pudesse dar uma espiada no Planeta Terra de 2019, não iria reconhecer seu planeta. Fonte: http://veja.abril.com.br/blog/denis-russo/

______________________________________________________________________

É URGENTE REVER OS FUNDAMENTOS

boff_pic

Por Leonardo Boff

A conjugação das várias crises, algumas conjunturais e outras sistêmicas, obriga a todos a trabalhar em duas frentes: uma intrasistêmica buscando soluções imediatas dos problemas para salvar vidas, garantir o trabalho e a produção e evitar o colapso. Outra transsistêmica, fazendo uma crítica rigorosa aos fundamentos teóricos que nos levaram ao atual caos e trabalhar sobre outros fundamentos que propiciem uma alternativa que permita, num outro nivel, a continuidade do projeto planetário humano.

Cada época histórica precisa de um mito que congregue pessoas, galvanize forças e confira novo rumo à história. O mito fundador da modernidade reside na razão, desde os gregos, o eixo estruturador da sociedade. Ela cria a ciência, transforma-a em técnica de intervenção na natureza e se propõe dominar todas as suas forças. Para isso, segundo Francis Bacon, o fundador de método científico, deve-se torturar a natureza até que entregue todos os seus segredos. Essa razão crê num progresso ilimitado e cria uma sociedade que se quer autônoma, de ordem e progresso. A razão suscitava a pretensão de tudo prever, tudo gerir, tudo controlar, tudo organizar e tudo criar. Ela ocupou todos os espaços. Enviou ao limbo outras formas de conhecimento.

Eis que, depois de mais de trezentos anos de exaltação da razão, assistimos a loucura da razão. Pois só uma razão enlouquecida organiza a sociedade na qual 20% da população mundial detém 80% de toda riqueza da Terra; as três pessoas mais ricas do mundo possuem ativos superiores à toda riqueza de 48 paises mais pobres onde vivem 600 milhões de pessoas; 257 indivíduos sozinhos acumulam mais riqueza do que 2,8 bilhões de pessoas, o equivalente a 45% da humanidade; no Brasil 5 mil famílias detém 46% da riqueza nacional. A insanidade da razão produtivista e consumista gerou o aquecimento global que trará desiquilíbrios já visíveis e a dizimação de milhares de espécies, inclusive a humana.

A ditadura da razão criou a sociedade da mercadoria com sua cultura típica, um certo modo de viver, de produzir, de consumir, de fazer ciência, de educar, de ensinar e de moldar as subjetividades coletivas. Estas devem se afinar à sua dinâmica e valores, procurando sempre maximalizar os ganhos, mediante a mercantilização de tudo. Ora, essa cultura, dita moderna, capitalista, burguesa, ocidental e hoje globalizada entrou em crise. Ela se expressa nas várias crises atuais que são todas expressão de uma única crise, a dos fundamentos. Não se trata de abdicar da razão, mas de combater sua arrogância (hybris) e de criticar seu estreitamento na capacidade de comprender. O que a razão mais precisa neste momento é de ser urgentemente completada pela razão sensível (M.Maffesoli), pela inteligência emocional (D.Goleman), pela razão cordial (A. Cortina), pela educação dos sentidos (J.F.Duarte Jr), pela ciência com consciência (E. Morin), pela inteligência espiritual (D. Zohar), pelo concern (R.Winnicott) e pelo cuidado como eu mesmo venho propondo há tempos.

É o sentir profundo (pathos) que nos faz escutar o grito da Terra e o clamor canino de milhões de famélicos. Não é a razão fria mas a razão sensível que move as pessoas para tira-las da cruz e faze-las viver. Por isso, é urgente submeter à crítica o modelo de ciência dominante, impugnar radicalmente as aplicações que se fazem dela mais em função do lucro do que da vida, desmascarar o modelo de desenvolvimento atual que é insustentável por ser altamente depredador e injusto.

A sensibilidade, a cordialidade, o cuidado levados a todo os níveis, para com a natureza, nas relações sociais e na vida cotidiana, podem fundar, junto com a razão, uma utopia que podemos tocar com as mãos porque imediatamente praticável. Estes são os fundamentos do nascente paradigma civilizatório que nos dá vida e esperança.

Leonardo Boff/Revista Fórum

______________________________________________________________________

FELIZES COM A CRISE

macaco2

Escrito por Danilo Pretti Di Giorgi

 

Imagine se, como no livro Revolução dos Bichos, de George Orwell, os animais do planeta tivessem senso crítico e opinião, ou, como em Senhor dos Anéis, obra de J. R. R. Tolkien, as árvores fossem capazes de fazer reuniões para decidir o que é melhor para sua floresta. Teríamos hoje a maior parte dos seres vivos do planeta a comemorar as possíveis conseqüências ambientais positivas da crise.

Num cenário recessivo, seriam grandes as chances de redução nas emissões de carbono, no consumo de madeira nativa e na demanda por novas áreas de floresta para criação de gado e plantio de soja. Cairia também o crescimento do consumo de energia elétrica e, assim, arrefeceria a pressão para a construção de novas hidrelétricas em áreas de floresta virgem; até mesmo as linhas de financiamento para obras de grande porte escasseariam. A pesca industrial também seria reduzida, o que daria um respiro para as espécies de peixes marinhos ameaçados de extinção.

Com a queda da produção e do consumo, seria menor a quantidade de mercadorias transportadas entre as cidades e países, com menos caminhões queimando o óleo diesel de quinta qualidade que polui as estradas e cidades brasileiras com seus índices indecentes de emissão de enxofre. Uma recessão faria diminuir o número de celulares (e suas baterias venenosas) sendo jogados no lixo a cada minuto. Com a queda nas vendas de automóveis e demais produtos industrializados que utilizam minério de ferro e outros minerais em sua produção, as reservas desses recursos naturais (que são finitas, não custa relembrar) e a natureza ao redor delas seriam poupadas. Com retração da economia, as pessoas consumiriam menos e cairia a produção de lixo, tornando menos urgente encontrar soluções para a superlotação dos aterros sanitários e dos famigerados lixões.

Há ambientalistas que argumentam que a crise pode de alguma forma ser prejudicial, ao inibir investimentos e decisões governamentais ambientalmente positivas. Os debates travados na reunião de cúpula da União Européia, realizada este mês, reforçam a tese: nove integrantes do bloco, liderados pela Itália de Berlusconi, usaram a crise econômica como razão para colocarem-se contra um plano já acordado meses atrás, que prevê redução em 20% da emissão de gases que provocam o efeito estufa até 2020. Para Berlusconi, “as empresas italianas não estão em condições de arcar com as despesas para atingir essas metas”.

Mas o histórico recente de desrespeito a acordos de emissão de gases mostra que esse caminho não merece ser levado a sério por quem realmente se preocupa com a questão ambiental. O famoso Protocolo de Kyoto, por exemplo, assinado em 1997, morreu de desgosto por ter sido sistematicamente desrespeitado pelos governos signatários – e isso apesar de que suas metas de redução eram consideradas insuficientes para conter os efeitos das emissões.

A provável redução no direcionamento de recursos para conservação é outra preocupação válida. Mas arrisco afirmar que os benefícios da retração na degradação ambiental em caso de recessão superariam em muito eventuais problemas com corte de verbas para projetos de proteção e conservação.

Seja nos próximos meses ou daqui a cinco, 15 ou 100 anos, a derrocada desse sistema econômico é inevitável, uma vez que se baseia em premissas insanas e insustentáveis, como a de que os recursos naturais que o alimentam têm suprimento infinito e que o crescimento econômico constante e ilimitado é possível. Em algum momento, a escassez de recursos em geral, em especial os minerais (muitos com data marcada para acabar, como destacado neste espaço no artigo O preço do índio), será um dos fatores que vão inviabilizar a perpetuação do sistema linear de extração-produção-consumo no qual estamos mergulhados e nos afundando. Mas tenho esperança de que não precisaremos secar as fontes para interromper essa espiral de insanidade.

Apesar de saber que toda a humanidade, incluindo eu, minha família e amigos, sofrerão na pele as duras conseqüências de um mergulho recessivo da economia, tendo a ficar do lado dos bichos e vegetais encantados e torcer para que o remédio amargo seja tomado logo desta vez, e o quanto antes. Porque, dada a velocidade que a destruição assumiu nas últimas décadas, apesar de ainda termos hoje grandes pedaços de floresta relativamente intactos, muitos peixes no mar e alguns rios limpos e livres de represas, corremos o risco de perder tudo isso em poucos anos.

As conseqüências das barbeiragens protagonizadas por homens elegantes que usam gravatas de milhares de dólares mostram que talvez não seja necessário esperar que as geleiras derretam, o sertão vire mar nem a Amazônia transforme-se num deserto para que o caos se instale entre nós. Melhor que ele venha logo enquanto ainda temos grande parte da biodiversidade do mundo intacta. E tomara que aprendamos alguma coisa de útil com sua chegada.
Danilo Pretti Di Giorgi é jornalista.
Fonte: Correio da Cidadania.

______________________________________________________________________

UM POUCO DE SILÊNCIO

Lya Luft, do livro Pensar é transgredir.

Nesta trepidante cultura nossa, da agitação e do barulho, gostar de sossego é uma excentricidade.

Sob a pressão do ter de parecer, ter de participar, ter de adquirir, ter de qualquer coisa, assumimos uma infinidade de obrigações. Muitas desnecessárias, outras impossíveis, algumas que não combinam conosco nem nos interessam.

Não há perdão nem anistia para os que ficam de fora da ciranda: os que não se submetem mas questionam, os que pagam o preço de sua relativa autonomia, os que não se deixam escravizar, pelo menos sem alguma resistência.

O normal é ser atualizado, produtivo e bem-informado. É indispensável circular, estar enturmado. Quem não corre com a manada praticamente nem existe, se não se cuidar botam numa jaula: um animal estranho.

Acuados pelo relógio, pelos compromissos, pela opinião alheia, disparamos sem rumo – ou em trilhas determinadas – feito hâmsteres que se alimentam de sua própria agitação.

Ficar sossegado é perigoso: pode parecer doença. Recolher-se em casa ou dentro de si mesmo, ameaça quem leva um susto cada vez que examina sua alma.

Estar sozinho é considerado humilhante, sinal de que não se arrumou ninguém – como se amizade ou amor se “arrumasse” em loja. Com relação a homem pode até ser libertário: enfim só, ninguém pendurado nele controlando, cobrando, chateando. Enfim, livre!

Mulher, não. Se está só, em nossa mente preconceituosa é sempre porque está abandonada: ninguém a quer.

Além do desgosto pela solidão, temos horror à quietude. Logo pensamos em depressão: quem sabe terapia e antidepressivo? Criança que não brinca ou salta nem participa de atividades frenéticas está com algum problema.

O silêncio nos assusta por retumbar no vazio dentro de nós. Quando nada se move nem faz barulho, notamos as frestas pelas quais nos espiam coisas incômodas e mal resolvidas, ou se enxerga outro ângulo de nós mesmos. Nos damos conta de que não somos apenas figurinhas atarantadas correndo entre casa, trabalho e bar, praia ou campo.

Existe em nós, geralmente nem percebido e nada valorizado, algo além desse que paga contas, transa, ganha dinheiro, e come, envelhece, e um dia (mas isso é só para os outros!) vai morrer. Quem é esse que afinal sou eu? Quais seus desejos e medos, seus projetos e sonhos?

No susto que essa idéia provoca, queremos ruído, ruídos. Chegamos em casa e ligamos a televisão antes de largar a bolsa ou pasta. Não é para assistir a um programa: é pela distração.

Silêncio faz pensar, remexe águas paradas, trazendo à tona sabe Deus que desconserto nosso. Com medo de ver quem – ou o que – somos, adia-se o defrontamento com nossa alma sem máscaras.

Mas, se a gente aprende a gostar um pouco de sossego, descobre – em si e no outro – regiões nem imaginadas, questões fascinantes e não necessariamente ruins.

Nunca esqueci a experiência de quando alguém botou a mão no meu ombro de criança e disse:

- Fica quietinha, um momento só, escuta a chuva chegando.

E ela chegou: intensa e lenta, tornando tudo singularmente novo. A quietude pode ser como essa chuva: nela a gente se refaz para voltar mais inteiro ao convívio, às tantas frases, às tarefas, aos amores.

Então, por favor, me dêem isso: um pouco de silêncio bom para que eu escute o vento nas folhas, a chuva nas lajes, e tudo o que fala muito além das palavras de todos os textos e da música de todos os sentimentos.

__________________________________________________________________

A BOLHA COLETIVA DE MICHAEL JACKSON

Fabrício Carpinejar

Esqueci de contar quantas vezes ralei o joelho descendo ladeira de bicicleta ou jogando futebol ou brincando de Flash Gordon entre materiais de construção. Recordo claramente que levei 35 pontos na cabeça, resultado de cinco quedas. Os atendentes do pronto-socorro já me recebiam pelo nome. Escorregava em ladrilhos, batia a testa em quinas no pega-pega, lançava o corpo na corda do varal esperando atingir o outro lado… Fui uma peste, misto de azarado e distraído.

Apesar dos acidentes, minha mãe não me colocava de castigo. Não me proibia a infância. Orientava apenas que tomasse cuidado. Não era nem intolerante, muito menos condescendente. Um gesto que traduzo como firmeza de carinho.

Diverso da minha criação, meu filho de seis anos ainda não correu atrás de um galo, não duvido que fuja de um pavão, é desconfiado com os cachorros, pedirá licença para subir no telhado, não promoverá guerra de frutas, tampouco arremessará bexiguinha nos passantes, que voltarão menos irritados para suas casas. Está preso a um apartamento e a um entendimento virtual do que existe e do que não existe. Conhece a natureza por ouvir falar, por ler, por assistir, por espiar de longe no zoológico, com as muradas de proteção.

Ele mal reclama um ai, que estou o amparando. Não o permito chorar. Não o deixo penar. Quero substituí-lo para que não sofra nenhum arranhão. Sou seu dublê emocional. É amor, eu sei, entretanto, um amor que não permite que cresça sem mim. Não o ajudo a criar resistência. Uma intimidade que o fragiliza, que não o inspira a responder por sua conta e se responsabilizar pela pergunta. Tenho que estar perto, não no lugar dele.

O protecionismo gera crianças sem anticorpos sociais. Sem reação. Teoricamente preparadas para preservar o ambiente, tecnicamente incapazes de discernir o que é necessário ou não, o que comove ou não, o que é bom ou ruim. O que adianta uma pele sem cicatrizes numa alma apavorada?

Meu filho não pode tomar banho de chuva porque irá se gripar. Mas é na chuva que provará o milagre da água. Meu filho não pode se sujar numa festa de aniversário porque estragará sua roupa nova. Mas é na lama que alcançará a cumplicidade da aventura. Meu filho não poderá mexer no fogão porque é certo que vai se queimar (quando eu cozinhava desde os dez anos para ajudar a mãe no serviço). Meu filho terá que ir a um psicólogo para resolver sua falta de concentração na escola. Os pais usam os filhos para cumprirem seus tratamentos por tabela.

Como propor um cuidado com as árvores se não explico o que é uma pitangueira, um flamboyant, uma figueira? Como se aproximar dos passarinhos se não nomeio um pardal ou um sabiá? Como ensinar ecologia aos filhos transmitindo o medo do contato, o medo do convívio? Medo de experimentar. Medo de machucar e sarar, de dar a volta por cima.

Isolamos os pequenos dos perigos para que eles não corram riscos nenhum. Coletivizamos a bolha do Michael Jackson. Sem o mínimo de vulnerabilidade, não descobrem seus próprios limites. Acham tudo possível. Prevenindo o pior, eliminamos o que há de mais notável na vida: a espontaneidade. A possibilidade terapêutica de simplesmente dizer diante de uma ferida que “não foi nada”, e soprar um arranhão.

Publicado na minha coluna “Primeiras Intenções”
Revista Crescer, São Paulo, Número 178, Setembro de 2008 – Fonte: http://www.fabriciocarpinejar.blogger.com.br

 __________________________________________________________________

Dia de Corpus Christi: eucaristia ou sacro canibalismo simbólico?

 

Quando era pequeno, antes de fazer a primeira comunhão, sim meus amigos eu fiz, imaginava que a hóstia teria gosto de carne, por essa razão excitei muito em fazer a catequese, pois comer parte do corpo de alguém, no caso o próprio Cristo, não era muito convidativo. Assim, neste feriado Corpus Christi, escreve esse curupira de montanha, ex-canibal simbólico e atualmente fazendo de tudo para deixar de ser carnívoro.

É claro que o tema da eucaristia, que os católicos celebram hoje, já foi muito glosado como sendo uma forma de canibalismo simbólico. Convém dizer que, de um ponto de vista antropológico, todo o canibalismo é simbólico, quer se ingira carne ou algo que a represente. O que importa é a noção de comunhão, de absorção das qualidades daquele(a) que se ingere e que passa a ser parte de quem ingere: uma divindade, um antepassado, algo que é normalmente tabu e só deixa de ser em circunstâncias cerimoniais específicas, representantes de grupos rivais, etc. Muitos protestantes apodaram a eucaristia de canibalismo. Os católicos dizem que não é tal coisa. Tanto uns como outros debatem este assunto porque a noção de “canibalismo” ganhou, na sua cultura comum (a Ocidental), o significado de coisa própria de bárbaros e selvagens – todos aqueles primitivos que precisavam ser evangelizados. Isto é, que precisavam abandonar a sua forma de canibalismo.

Para saber mais, há um número da Annual Review of Anthropology dedicado ao canibalismo.

___________________________________________________________________

Rompendo Paradigmas – parte 1.

“E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que se move sobre a terra. E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou. E Deus os abençoou e Deus lhes disse: Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra”. Gênesis (1:26 a 28).

De todas as criaturas que existiram, o homem é a mais moderna, ocupando um exíguo espaço de tempo na linha da evolução das espécies. E nesse curto espaço de tempo conseguiu causar tantos estragos que mais parece um vírus que infectou o planeta. E para um vírus só há duas saídas, ou destrói o hospedeiro e morre junto com ele, ou acaba sendo eliminado pelo sistema imunológico deste hospedeiro. É assim que funciona, não há outra saída. A menos que esse vírus resolva mudar seu destino e transformar-se em um ser simbionte, e assim coexistir em harmonia com o planeta como fizeram todas as criaturas que viveram ao longo da existência da vida na Terra.
Gardel Silveira, curupira de montanha.

___________________________________________________________________

Para ler e refletir.

Texto copiado do blog do Luis Carlos Azenha (www.viomundo.com.br) – Atualizado em 07 de maio de 2008 às 15:54 | Publicado em 07 de maio de 2008 às 15:45 – De: Ney Gastal (jornalista ambientalista) Para: Amyra El Khalili (ambientalista)

Amyra e a quem mais interessar.

Com o fastio e o pessimismo de quem há anos escreve textos neste tom, quero apenas acrescentar um comentário:

Não creio que haja solução.

Mais.

Não creio que haja porque haver solução.

Todas as espécies tem seu tempo.

Os dinossauros sobreviveram em paz com a terra por milhões de anos.

O homem preferiu domá-la, transformá-la, subordiná-la, destruí-la.

Foi a mais forte espécie que já passou pelo planeta – até onde se saiba – e fez uso desta força para envenenar tudo.

Vai ser uma das mais rapidamente extintas (e levando outras de roldão) que já passou pelo planeta.

É lógico o processo do planeta – de Gaia, se quiserem – para se desintoxicar.

A febre existe para combater agressões ao nosso corpo.

O planeta está com febre (e não me refiro necessariamente ao aquecimento global) para nos combater.

Porque luta para sobreviver e poder continuar abrigando formas de vida menos agressivas.

E nós o agredimos.

Em meus momentos mais otimistas, também gosto de imaginar soluções.

Mas elas não passam por ajustes e sim por uma mudança conceitual tão grande que me parece impossível.

Acreditei muito no conceito das ONGs enquanto elas eram exatamente isto, ONGs.

Organizações Não Governamentais.

Infelizmente, ao mesmo tempo que algumas poucas tentaram mudar as coisas através da mudança de mentalidades, outras tantas aderiram ao “projetismo”.

É projeto pra cá, é projeto pra lá, e projeto, se sabe, precisa de financiamento.

Então começou a rolar dinheiro, primeiro de grandes empresas “conscientizadas”, depois dos grandes governos e por fim de todo mundo.

No Brasil chegou-se a cúmulo de criar as tais OSCIPs, que em última instância são um jeito do governo privatizar tudo o que dá trabalho.

Em um país “oscipizado”, o governo se livra das áreas de cultura, meio-ambiente, destas “frescuras”, e as repassa à sociedade.

Se exime. Lava as mãos. Cai fora.

E os idealistas da sociedade (geralmente os mais moços, como sempre) alegremente acreditam que isto é um avanço e botam mãos à obra.

Pouco tempo depois ou estão desiludidos ou foram cooptados.

E a conseqüência disto é que as OSCIPs serão a ponte para a privatização das coisas que mais caracterizam uma nação enquanto tal:

O meio ambiente onde ela existe e sua cultura.

Duas coisas que devem ser de obrigação do Estado cuidar e proteger, e que estão sendo lentamente privatizadas.

Sou presidente de uma ONG que ano que vem vai fazer 20 anos e que já foi muito ativa.

NUNCA pedimos nem aceitamos um único centavo de qualquer governo, mesmo quando oferecido.

NUNCA. Um único.

Trabalhamos muito tempo na área de unidades de conservação, mas NUNCA pretendemos substituir, complementar ou fazer parte dos órgãos oficiais.

Nos limitamos a auxiliar sua atividade no que fosse possível, sempre subordinados aos administradores locais.

Brigando quando necessário, é claro, mas geralmente em brigas que reforçavam as chefias locais contra as burrocracias centrais.

Cansamos.

E, aos poucos, fomos percebendo que quando um assunto é comandado à distância por gente, concursada ou não, que não conhece a realidade, o fracasso é inevitável.

O Brasil e o mundo, atualmente, são governados e manipulados a partir de centros de poder que desconhecem ou, pior, querem ignorar a realidade.

Os interesses das capitais e/ou matrizes do poder estão completamente dissociados dos interesses das pessoas que fazem a sociedade.

Mas mesmo estas, em grande parte, querem mesmo é participar dos confortos do poder.

Por isso acontece o que se vê, quando alguém “chega lá”: sucumbe.

Se adapta.

Se ajusta.

Cala.

Mas o planeta não quer nem saber.

Por isso, o caminho do fim (deste ciclo de vida, da dominação humana, sei lá de que) me parece inevitável.

Esta história de que o “social” deve prevalecer ao individual é puro blefe.

O individualismo altruísta seria o único caminho pelo qual a Humanidade poderia ser salvo.

Um tipo de individualismo onde as pessoas não se importariam nem tanto consigo próprias, nem tanto com o “social”.

Um tipo de individualismo onde todos se preocupariam com os outros indivíduos enquanto tal, e não como massa.

Um jeito de viver onde todos tivessem rosto, personalidade.

Onde o menininho que pede esmolas na sinaleira mereceria, sim, ajuda de cada um de nós e não que fosse deixado a cargo do governo porque é um “problema social”.

Não existe problema social.

Existem problemas individuais, de milhões de pessoas, de bilhões de indivíduos.

Quem se preocupa com indivíduos pode, sim, vir a mudar de atitude frente a tudo.

Quem só se precupa com o “social”, com a “coletividade”, com os “consumidores” ou os “eleitores”, não vê pessoas nestes grupos, só massa de manobra.

E estes – que formam a grande maioria – não estão nem aí para o que está acontecendo ao planeta.

Porque vivem apenas para o presente, para o poder, para o lucro, para si em nome de todos.

É isto que está nos conduzindo ao fim.

_________________________________________

HOMO SAPIEN DEMENS

O homem moderno, a mais brilhante das criaturas se diferencia dos outros animais pelo orgulhoso e multifuncional polegar opositor. É também conhecido no meio acadêmico como Homo sapien sapiens. Perceberam o termo sapien sapiens repetido duas vezes?  Isso é para lembrar que somos duplamente sábios. Coitados… são apenas macacos. Macacos cujos cérebros evoluíram para um tamanho tão ingovernável que agora é impossível para eles ficarem felizes por muito tempo. Na verdade, eles são os únicos animais que pensam que deveriam ser felizes. E para atingir esta felicidade vale tudo, Prozac, álcool, dinheiro, lucro, roupas de marcas famosas, jóias, religiões dogmáticas, gula, tv de tela plana, drogas, segregação racial, violência, poder, Lei de Gerson, carro zero, a mulher do vizinho… mas são apenas macacos que deixaram de ser macacos felizes e tornaram-se Homo sapien demens e muito infelizes.

Gardel, curupira do sítio.

Aqui vai dois vídeos que ajudam a ilustrar um pouco o texto acima.

Dancem macacos, dancem: um divertido filme que faz uma análise da raça humana.

Ilha das Flores (parte 01): um ácido e divertido retrato da mecânica da sociedade de consumo. Acompanhando a trajetória de um simples tomate, desde a plantação até ser jogado fora, o curta escancara o processo de geração de riqueza e as desigualdades que surgem no meio do caminho. Documentário de Jorge Furtado.

Ilha das Flores (parte 02)

___________________________________________________________________

Rompendo Paradigmas – parte 2.

(Recebi este texto de José Vítor, um velho e sábio amigo).

Laura Schlessinger, nascida no Brooklyn, em Nova York, é uma das radialistas mais populares dos Estados Unidos. O seu programa de rádio, de aconselhamento sobre problemas individuais e familiares, tem uma audiência diária de 20 milhões de ouvintes. O sucesso no rádio levou-a também ao sucesso na literatura. Seus livros vendem milhões de exemplares. Num de seus programas um ouvinte indagou-lhe sobre a questão da homossexualidade, e ela sem hesitar respondeu que era uma abominação, pois assim a Bíblia o afirma no livro de Levítico 18:22.
Um outro ouvinte escreveu-lhe então, uma carta que ora transcrevo:

“Querida Dra. Laura: Muito obrigado por se esforçar tanto para educar as pessoas segunda a Lei de Deus. Eu mesmo tenho aprendido muito no seu programa de rádio e desejo compartilhar meus conhecimentos com o maior número de pessoas possível. Por exemplo, quando alguém se põe a defender o estilo homossexual de vida eu me limito a lembrar-lhe que o livro de Levítico, no capítulo 18, verso 22, estabelece claramente que a homossexualidade é uma abominação. E ponto final. Mas, de qualquer forma, necessito de alguns conselhos adicionais de sua parte a respeito de outras leis bíblicas concretamente e sobre a forma de cumpri-las:

A) Gostaria de vender minha filha como escrava, tal como o indica o livro de Êxodo, 21:7. Nos tempos em que vivemos, na sua opinião, qual seria o preço adequado?

B) O livro do Levítico, 25:44, estabelece que posso possuir escravos, tanto homens quanto mulheres, desde que sejam adquiridos de países vizinhos. Um amigo afirma que isso só se aplica aos mexicanos, mas não aos canadenses. Será que a senhora poderia esclarecer esse ponto? Porque não posso possuir escravos canadenses?

C) Sei que não estou autorizado a ter qualquer contato com mulher alguma no seu período de impureza menstrual (Levícito 18:19, 20:18, etc.). O problema que se coloca é o seguinte: como posso saber se as mulheres estão menstruadas ou não? Tenho tentado perguntar-lhes, mas muitas mulheres são tímidas e outras se sentem ofendidas.

D) Tenho um vizinho que insiste em trabalhar no sábado. O livro de Êxodo, 35:2, claramente estabelece que quem trabalha aos sábados deve receber a pena de morte. Isso quer dizer que eu, pessoalmente sou obrigado a matá-lo? Será que a senhora poderia, de alguma maneira, aliviar-me dessa obrigação aborrecida?

E) No livro do Levítico, 21:18 – 21, está estabelecido que uma pessoa não pode se aproximar de Deus se tiver algum defeito na vista. Preciso confessar que eu preciso de óculos para ver. Minha acuidade visual tem de ser 100% para que eu me aproxime do altar de Deus? Será que se pode abrandar um pouco essa exigência?

F) A maioria dos meus amigos homens tem o cabelo bem cortado, muito embora isto esteja claramente proibido no Levítico, 19:27. Como é que eles devem morrer?

G) Eu sei, graças ao Levítico, 11:6-8. que quem tocar a pele de um porco morto fica impuro. Acontece que eu jogo futebol americano, cujas bolas são feitas com pele de porco. Será que me será permitido continuar a jogar futebol americano se eu usar luvas?

H) Meu tio tem uma granja. Ele deixa de cumprir o que diz o Levítico 19:19. pois planta dois tipos diferentes de sementes no mesmo campo e também deixa de cumprir no que diz respeito à sua mulher, que usa roupas de dois tecidos diferentes, a saber, algodão e poliéster. Além disso, ele passa o dia proferindo blasfêmias e se maldizendo. Será que é necessário levar a cabo o complicado procedimento de reunir todas as pessoas da vila para apedrejá-lo? Não poderíamos adotar um procedimento mais simples, qual seja, o de queimá-lo numa reunião privada, como se faz com um homem que dorme com a sua sogra, ou uma mulher que dorme com o seu sogro (Levítico 20:14)?

Sei que a senhora estudou estes assuntos com grande profundidade de forma que confio plenamente na sua ajuda. Obrigado novamente por recordar-nos que a palavra de Deus é eterna e imutável.”
___________________________________________________________________

Mandem comentários ou textos que acharem apropriados para a página. Só não publicarei textos que forem escritos na linguagem de abreviaturas (MSNês) que costuma rolar na internet. Por favor, escrevam em português compreensível. Obrigado!

 
 
 
 
 

1 Comentário

  1. Julho 11, 2009 às 8:31 am

    [...] Nesta trepidante cultura nossa, da agitação e do barulho, gostar de sossego é uma excentricidade. Sob a pressão do ter de parecer, ter de participar, ter de adquirir, ter de qualquer coisa, assumimos uma infinidade de obrigações. Muitas desnecessárias, outras impossíveis, algumas que não combinam conosco nem nos interessam. Não há perdão nem anistia para os que ficam de fora da ciranda: os que não se submetem mas questionam, os que pagam o preço de sua relativa autonomia, os que não se deixam escravizar, pelo menos sem alguma resistência. O normal é ser atualizado, produtivo e bem-informado. É indispensável circular, estar enturmado. Quem não corre com a manada praticamente nem existe, se não se cuidar botam numa jaula: um animal estranho. Acuados pelo relógio, pelos compromissos, pela opinião alheia, disparamos sem rumo – ou em trilhas determinadas – feito hâmsteres que se alimentam de sua própria agitação. Ficar sossegado é perigoso: pode parecer doença. Recolher-se em casa ou dentro de si mesmo, ameaça quem leva um susto cada vez que examina sua alma… Para ler o texto completo acesse a página: Chá Filosófico [...]


Comente