Faça você mesmo

Sistema para tratamento das águas negras do Sitio Curupira

Transformando resíduo humano em adubo

desenho_01Um dos maiores problemas hoje nos centro urbanos e rurais é a falta de tratamento adequado dos efluentes das residências. Um exemplo bem próximo aqui do sítio é a capital de nosso estado, Florianópolis. Entre a baia sul e norte, em todas as praias do continente e da ilha, a balneabilidade é proibida, devido aos altos números de coliformes fecais na água. Estas praias somam quase 2/3 das praias de Florianópolis. Imaginem se o esgoto fosse realmente tratado, então teríamos 2 vezes mais lugares para banho na capital. Assim descongestionaria a ilha na alta temporada e fomentaria o comércio e a rede hoteleira do continente e da parte oeste da ilha.
Nas zonas rurais não é diferente e, às vezes, é pior ainda. Morando no sítio pude observar bem as nascentes e córregos de minha região. Na sua origem são quase todas livres de contaminantes, mas basta o córrego passar por uma propriedade para receber dejetos das residências, seja direta ou indiretamente por infiltração no solo, ou pelas fezes dos ruminantes criados soltos em seu entorno.

Cano de inspeção com válvula de escape de gases

Cano de inspeção com válvula de escape de gases

É possível mudar este quadro, ou pelo menos diminuir o impacto dos efluentes no meio ambiente. Existem inúmeras técnicas para tratamento das águas negras (água do vaso sanitário) de uma residência. Aqui no Sitio Curupira resolvemos aproveitar algumas estruturas que já tínhamos, como a tradicional fossa séptica de concreto, duas caixas plásticas d’água de 500 litros e algumas tubulações que sobraram da obra da casa. No início tivemos que fazer algumas adaptações, como lacrar a fossa e o sumidouro, criando assim duas câmaras fechadas sem contato com o solo e lençol freático. Para fazer as conexões utilizamos PVC de 100 mm, e para evitar vazamentos na conexão entre o cano e a caixa d’água usamos silicone. Como este sistema funciona em fluxo contínuo com um registro para coleta no final do processo, não há necessidade de grandes estruturas como a da bacia de evapotranspiração, otimizando assim o espaço para a implementação. Já estamos usando este sistema há 6 meses e acredito que ele funcione perfeitamente para até 4 pessoas. Para diminuir a quantidade de água no sistema foi instalando um mictório masculino, poupando assim, pelo menos, 3 litros de água a cada descarga (Usamos vaso sanitário econômico. Os convencionais usam em torno de 12 litros por descarga). O efluente deste mictório é captado em um pequeno reservatório para ser usado como adubo líquido nas árvores.

Caixa com plantio de Inhame

Caixa com Inhame

Este sistema de tratamento é o resultado da pesquisa de várias técnicas. Entre elas está a fermentação anaeróbica, onde a água negra é decomposta e transformada em adubo líquido. A fermentação anaeróbica consiste na digestão pelas bactérias benéficas dos resíduos sólidos, assim como seus patógenos. Este processo ocorre dentro das duas fossas e na parte inferior das caixas d’água. Na fermentação anaeróbica são liberados gases, por esta razão é importante uma válvula de escape nas duas fossas. Neste projeto não há aproveitamento dos gases como combustível para uso doméstico, pois a quantidade de dejetos é muito pequena.
Como em muitas residências a água encanada é tratada com cloro, e para se obter mais eficiência nos resultado, é importante acrescentar regularmente algum ativador da fermentação. O cloro é um bactericida e pode eliminar tanto as bactérias maléficas como as benéficas. Neste caso sugerimos o uso de:

  • esterco de gado fresco (10 quilos diluídos em água), ou
  • melaço (1/2 litro de melado diluído em 10 litros de água), ou
  • caldo de cana (10 litros), ou
  • EM – microrganismos eficientes – (1 copo de EM + 500 ml de melado diluídos em 10 litros de água). Faça você mesmo seu EM. Para baixar o arquivo em (pdf) clique aqui
Caixa com papiro e caixa com aguapé

Caixa com papiro e caixa com aguapé

Estes “ativadores” da fermentação podem ser colocados, a cada 30 dias, diretamente pela descarga do vaso sanitário ou pela tampa de inspeção das fossas. Assim a fermentação ocorre nas duas fossas. Outra função importante da fermentação é não deixar acúmulos sólidos no fundo das câmaras, pois a atividade da fermentação faz com que o fundo fique revirando constantemente.
Seguindo o caminho, o efluente passa por duas caixas d’água onde as bactérias anaeróbicas continuarão ativas no entorno dos cacos de telhas, tijolos e da brita, “refinando” ainda mais o tratamento. Depois da brita, o efluente segue pela filtragem da areia e pelo tratamento com as raízes das plantas.

As plantas utilizadas nesse sistema são específicas e adaptadas para locais alagados, com alta performance em tratamento de efluentes, realizam a aeração da rizosfera fornecendo oxigênio à flora bacteriana, absorvem nutrientes e formam uma rede de raízes que filtram e retêm resíduos do efluente, tornando-o límpido e de boa qualidade. Alguns exemplos de plantas que podem ser utilizadas:

Coletando o efluente tratado para colocar nas mudas de árvores

Coletando o efluente tratado para colocar nas mudas de árvores

  • Inhame – Colocasia antiquorum
  • Taioba – Xanthosoma sagittifolium
  • Papiro – Cyperus giganteus
  • Junco – Uncus effusus
  • Taboa – Typha domingensis

A segunda caixa d’água é igual à primeira, apenas diversificando as plantas e reforçando o tratamento.
A última etapa do sistema é um tanque com Aguapé (Eichhornia). Esta é uma planta aquática que tem a capacidade de absorver resíduos orgânicos e metais pesados contidos na água. As plantas utilizadas neste sistema não devem servir de alimento humano ou animal, mas podem ser utilizadas, depois de picadas, na compostagem ou como cobertura de solo. No final há um pequeno reservatório onde coletamos o líquido já tratado para colocar nas árvores frutíferas do sítio. Ainda não fizemos analise laboratorial deste efluente, mas posso garantir que ele sai quase que transparente e sem nenhum cheiro.

Efluente tratado, quase transparente e sem nenhum cheiro

Efluente tratado, quase transparente e sem nenhum cheiro

Dicas importantes:

  • Este é um sistema de tratamento biológico e dele depende o bom desempenho de uma infinidade de bactérias benéficas e uma delicada rede de raízes de plantas. Por esta razão nunca utilize produtos bactericidas como água sanitária, pinho sol, pastilhas adesivas para a limpeza e aromatização do vaso sanitário, pois estes produtos podem matar as bactérias da fermentação e contaminar o sistema com produtos químicos.
  • Além das bactérias e da ação das raízes das plantas, o sistema dispõem de meios (telhas, brita, areia) para a filtragem do efluente. A princípio, toda forma de filtro está fadada a saturar depois de algum tempo de uso. Acredito que pela ação da fermentação nas duas fossas, os sólidos serão dissolvidos e boa parte digeridos pelas bactérias, prolongando assim a vida útil do sistema. No entanto, alguma coisa sempre fica, e com tempo o efluente pode ter alguma dificuldade na passagem da 1ª caixa. Neste caso, uma intervenção para limpeza será necessária.
  • Para fazer a limpeza do vaso utilize escova e borrife regularmente com EM diluído em água. O EM tem a capacidade de limpar o local digerindo as bactérias que liberam mau cheiro.
  • Nunca despeje óleo usado de cozinha no vazo sanitário. O óleo vegetal pode matar as bactérias e obstruir o sistema. Faça sabão com este óleo. Veja a receita no post abaixo.
  • Nuca coloque papel higiênico, preservativos ou absorventes feminino no vaso sanitário, pois estes produtos podem obstruir o sistema.
  • Não utilize o líquido tratado para irrigar as hortaliças. No entanto, este efluente é perfeito para adubar árvores frutíferas, plantas de jardim ou para ativar a fermentação no processo de compostagem.
  • Pessoas que fazem uso freqüente de antibióticos não devem utilizar este sistema, pois estes “remédios” podem eliminar a flora bacteriana do sistema, prejudicando assim seu desempenho.
  • Se optar por esta forma de tratamento, nunca misture as águas cinzas (chuveiro, máquina de lavar, pias) da residência com as águas negras (exclusivas do vaso sanitário), pois os produtos químicos encontrados no sabão e xampu podem eliminar as bactérias benéficas da fermentação. Para tratamento das águas cinzas sugiro que utilizem a técnica do Círculo de Bananeiras.
  • Gostaríamos de deixar claro que este modelo de tratamento de águas negras é uma adaptação à estrutura e aos materiais que já tínhamos disponíveis no sítio e, ainda, ao limitado espaço em torno da casa. Não há necessidade de copiá-lo literalmente, pois não é essa a intenção deste post. O mais importante é compreender como funciona o processo de fermentação anaeróbica, a filtragem da brita e da areia, e a ação das raízes das plantas. Existem vários projetos que já foram testados e que podem ser copiados ou adaptados às condições de cada caso. Veja aqui alguns links que podem ajudar nesta pesquisa.
    Fossa séptica biodigestora – Embrapa
    Fossa séptica não-contaminante de lençol freático
    Tratamento de esgoto por meio de zona de raízes
    Sistema de Tratamento por zona de raízes
    Círculo de bananeiras para tratamento das águas cinzas
    Bacia de evapotranspiração – águas negras

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Sabão caseiro com óleo de cozinha e limão

Assim fica o sabão depois de pronto

Assim fica o sabão depois de pronto

Já tentamos várias receitas de sabão, algumas com bom resultado e outras nem tanto. Se pesquisar na web você vai achar várias receitas, no entanto poucas são tão simples e não utilizam gordura animal. Essa receita nos surpreendeu. É muito simples, com poucos ingredientes e funcionou já na primeira vez. Talvez a grande sacada dessa receita seja o fato de aconselhar a melhor fase da lua para fazer o sabão: ele deve ser feito entre a lua crescente e a cheia. Resolvemos experimentar e fazer na lua recomendada e o resultado ficou ótimo.

Ingredientes:

Aproveitamos que é época de limão cravo para fazer essa receita

Aproveitamos que é época de limão cravo para fazer essa receita

  • 3 litros de óleo de cozinha usado (peneirado ou coado para retirar as impurezas)
  • 500 gramas de soda cáustica em escamas
  • 1 litro de suco de limão

Aquecer o óleo até deixá-lo morno. Num balde plástico colocar o suco de limão e em seguida acrescentar a soda, mexer um pouco para dissolver e ir acrescentando o óleo morno. Ir mexendo até adquirir o ponto de doce de leite (mais ou menos uns 15 minutos, até o óleo esfriar). Colocar em um recipiente (nós usamos um bandeja coberta com filme plástico para facilitar) e aguardar endurecer para cortar.

Sabão pronto para ser desenformado e cortado

Sabão pronto para ser desenformado e cortado

Cortando o sabão após endurecer

Cortando o sabão após endurecer

Pode-se acrescentar essências se desejar um perfume mais forte, mas com o limão já basta para deixá-lo com um cheiro neutro.

Atenção: Muito cuidado na manipulação da soda, usar luvas e não deixar crianças e animais domésticos por perto. Não utilize recipintes e colheres de metal para fazer essa receita. Sempre utilizar recipientes plásticos para fazer o sabão e colher de madeira para mexer. As receitas são apenas indicativas e vários fatores podem alterar o resultado.

Uma vantagem de se fazer sabão caseiro é dar utilidade para o óleo utilizado em frituras. Nós não temos excedente de óleo, mas pedimos para amigos e conhecidos armazenarem e nos enviarem quando tiverem maior quantidade. Outra vantagem comprovada é que as mãos sofrem muito menos ressecamento com esse sabão. O sabão industrial, além de ácidos graxos de origem animais, pode conter vários ingredientes, como glicerina, corantes, anti-redepositantes, fragrâncias artificiais entre outros.

Quer saber como o sabão industrial é feito? Veja aqui.

 

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